domingo, 26 de junho de 2016





PERDA

De repente
a “ficha” caiu.
E foi assim como se estivesse
parada no ar
há muito tempo
e só agora se fizesse visível!
Foi como se o seu giro
de ampulheta
congelasse as horas
e, repentinamente,
se rompesse o gelo
da dormência indescritível.
E a dor da perda veio
inteira e nua
imperiosa e escancarada
anunciando
o tempo de vazio
que findou
e que não há mais nada
 que a impeça...
E é sempre assim:
nas grandes perdas... grandes dores....
grandes mágoas...
um choque... um susto... Uma fisgada...
Uma dormência....
Depois a ausência inerte
que não cessa...


Linda B. Dias

segunda-feira, 13 de julho de 2015








DESLIMITE
QUANDO O CENÁRIO DA VIDA
É DESOLAÇÃO
SONHOS NÁUFRAGOS BOIAM
À DERIVA
NOSSOS IMPULSOS MAIS SOMBRIOS
RONDAM,
ÁVIDOS ABUTRES QUE SÃO,
E A ESPERANÇA SEM RUMO
JÁ DESFALECIDA
SE ESQUIVA E FOGE
DESSA SOLIDÃO.
SÍNDROME DE UM TEMPO VAGO
- DESLIMITE –
RASCUNHO DE UM DESENHO
TOSCO E DESBOTADO
SOMBRAS QUE SOMOS
NOS TORNAMOS OCOS.
DIVORCIADOS DA RELIDADE
TURVADOS SEMPRE
EM LENTES QUE DEFORMAM
NOS ENQUADRAMOS NA MANADA
E CEGOS
NOS ESQUECEMOS DA DIGNIDADE.

LINDA BRANDÃO DIAS

quinta-feira, 9 de julho de 2015


CRER

QUANDO A TRISTEZA BATER EM SUA VIDA
LUTE!

MESMO QUE A SOMBRA INSISTA E SE INSINUE
LUTE!

SE UM TURBILHÃO DE VOZES TURVAS ECOAR
AINDA LUTE!

MESMO NO OFUSCAMENTO DO CARINHO
LUTE!

LUTE QUE O ECLIPSE DA ALMA PASSARÁ

E A RISPIDEZ APRISIONADA NO TEMOR DISSIPARÁ...

LUTE COM FÉ E UMA PALAVRA PINGARÁ
NO ESPAÇO

SOBREVIVENTE AMIGA DE UM TEMPO ESGOTADO

PARA ACENAR COM SEU LAMPEJO MUDO

LUTE COM FORÇA E UMA LUZ CALMA
EMERGIRÁ

DA DISTRAÇÃO PRESENTE NO DESÂNIMO

E EM LENTA DESINTEGRAÃO DO MAL
REVELARÁ

QUE BASTA CRER PRA QUE SE MUDE TUDO!!!


                                                                       LINDA BRANDÃO DIAS

terça-feira, 30 de junho de 2015



CERTEZAS

O SOM DOS MEUS SONHOS
FAZ BARULHO EM MINHA ALMA
INQUIETA O ESPÍRITO
E MOVIMENTA IDÉIAS...

NO SÓTÃO DOS PENSAMENTOS
ENSAIO METAS
DESENHO ATITUDES
PREVEJO RESULTADOS...

SEMIDIVINOS SOMOS
CÓPIAS QUE FOMOS GERADOS.

SÃO FRAGMENTOS DE CRENÇAS
ESBOÇANDO A REALIDADE
QUE ELABORO SEM RECEIO.

PROTÓTIPOS DE UM AMANHÃ
QUE SE CRIA
À IMAGEM E SEMELHANÇA
DO MODELO
EM MENTE.

E ME BASTA A CERTEZA
DA SEMENTE-SONHO
PARA PLANTAR A VIDA
E UM OUTRO SONHO
NA ARQUITETURA DO AMANHÃ
QUE ANSEIO...

Linda B. Dias

sexta-feira, 19 de junho de 2015






Desumanas barreiras se erguem
toscas
Separando os iguais
– tão desiguais –
A cada instante em que sentires tortos
Disseminando o mal
surgem fatais.
- maledicência, inveja,
ingratidão,
Falsidade, insegurança,
ignorância,
Violência, crueldade,
a vil ganância,
Falta de amor, desesperança,
solidão...
Quanto mais busco a luz
Melhor me torno.
Mais sentimentos pequenos vou
notando
Quanto mais planto o bem
entre as pessoas
mais desencanto e mágoas
vou sangrando...
Quanto mais alto me ergo
Em minha busca
Quanto mais cresço nesse
Aprimorar
Menor pareço àqueles que
- mesquinhos –
Jamais foram capazes
De voar!!!


Linda B. Dias



DECEPÇÃO

HOUVE UM TEMPO EM QUE AS PALAVRAS ERAM TERNAS.
- NÃO FARPAS PELO AR, NUAS, FERINAS...
HOUVE UM TEMPO EM QUE O OLHAR ME FORA DOCE.
-NÃO A CRUEZA FIEL DO DESAMOR...
HOUVE UM TEMPO DE MÃOS DADAS COM BRANDURA.
-NÃO ESCONDIDAS NA ASPEREZA DA DISTÂNCIA...
HOUVE UM TEMPO EM QUE A PRESENÇA ERA CUMPLICIDADE.
-NÃO ESSA QUASE AUSÊNCIA QUE MALTRATA.
HOUVE UM TEMPO, AFINAL, DE UM OUTRO TEMPO
QUE SE ESCOOU POR ENTRE OS DEDOS LASSOS
ONDE O QUE PARECIA SER, NÃO FOI, NÃO ERA
E SE PERDEU NA LINHA DOS ESPAÇOS.
PORQUE A TRISTEZA SE FEZ E SE INSTALOU
ONDE A RUDEZA FEZ MORADA, SORRATEIRA,
ONDE O VAZIO SUFOCANTE FEZ REFÉNS
MATANDO OS SONHOS DE UMA VIDA INTEIRA...
Linda B.Dias

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015






POEMA EM LINHA RETA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Poema extraído do livro "O EU PROFUNDO E OS OUTROS EUS ", Fernando Pessoa, antologia poética, editora Nova Fronteira)